NUMA TARDE DA DÉCADA DE 1970

Duas e meia da tarde. O lugarejo pequeno do Ceará está paralisado. O sol é inclemente. De repente, uma cipoada de vento; lá vem o redemoinho! Folhas secas no ar, a poeira sobe e faz parafuso. Uma beata, assusta-se: - Valha-me, São Reimundo! O comboieiro, que cochilava debaixo de uma das poucas árvores, pragueja, bodeja, valente! Seu peixe tinha se misturado ao vendaval. As mulheres, já velhas, repassam contas nas janelas. Os homens estão sentados nas calçadas, com a cabeça escorada na ponta da bengala. Alguns se atiram no fundo de umas fiangas surradas. De algumas casas vem o cheiro forte de café. Alguém grita do longe de uma cozinha fumacenta: - Zé, traz o pão! Oh, home sem esprito! Na ponta da rua surge uma meia dúzia de pessoas. Tem caras tristes. Trazem um caixãozinho branco. Nele há uma criança morta, vestida de azul. Mais uma que se vai, diante da frieza do governo. Todo dia passavam várias. Alguns dos acompanhantes já se repetiam nos cortejos incessantes. A vida se move devagar. Até que se abre a primeira bodega. Um homem que tremelicava debaixo do benjamim vira a primeira bicada. O comboieiro trepa a sacaria nos jegues cansados e já bicheirentos e some no poeiral! E grita e bate e canta, num gemido incompreensível. Homem valente. Viaja só. De companhia só sua macaca de relho e seus jegues. Vai pra Granja, Uruoca, Senador, Chaval, Camocim, Barroquinha,... De vez em quanto pensa na mulher nova que deixou em casa. Mulher nova... de saudade tão velha!
O homem valente pensa: quando chegar... e tempera a garganta, num riso besta...

Prof. João Teles, no Coreausiará

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